{"id":2190,"date":"2024-01-25T22:28:16","date_gmt":"2024-01-25T22:28:16","guid":{"rendered":"https:\/\/lead.uab.pt\/helaheduki\/?page_id=2190"},"modified":"2024-01-26T22:17:59","modified_gmt":"2024-01-26T22:17:59","slug":"capitulo-12","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/lead.uab.pt\/helaheduki\/capitulo-12\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 12"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Cap\u00edtulo 12 &#8211; A m\u00e3o ajuda a desenvolver o c\u00e9rebro<\/h2>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p><strong>Autoras<\/strong>: Maria Jo\u00e3o Carapinha e In\u00eas Carapinha<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong> percurso educacional, teoria das intelig\u00eancias m\u00faltiplas, suporte familiar, paralisia cerebral<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cita\u00e7\u00e3o:<\/strong> Carapinha, M. J. &amp; Carapinha, I. (2023). A m\u00e3o ajuda a desenvolver o c\u00e9rebro. In M. Francisco, C. Tom\u00e1s &amp; S. Malheiro (Orgs.). <em>12 hist\u00f3rias educacionais: Ser diferente na diversidade. Pr\u00e1ticas pedag\u00f3gicas em contextos pouco vis\u00edveis<\/em>. [Online]. LEAD, Universidade Aberta.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Ensinar a viver com \u2013 estrat\u00e9gias adequadas a cada etapa<\/h2>\n\n\n\n<p>A minha filha nasceu numa situa\u00e7\u00e3o de anoxia grave, n\u00e3o se sabendo quais as sequelas que da\u00ed poderiam advir no seu desenvolvimento. Os primeiros sinais manifestaram-se por volta dos 6 meses de idade, em que n\u00e3o conseguia controlar o tronco. O diagn\u00f3stico inicial foi apenas um atraso motor por parte da Neuropediatria e aguardar o seu desenvolvimento. Por iniciativa pr\u00f3pria, decidimos que ter\u00edamos de fazer algo para melhorar este atraso e o primeiro passo foi a \u201cNata\u00e7\u00e3o para beb\u00e9s\u201d e por volta dos 9 meses, fisiatria. Houve, sem d\u00favida, evolu\u00e7\u00f5es na \u00e1rea motora.&nbsp; Ao longo dos dois anos seguintes, ela continuava a apresentar muitas dificuldades a n\u00edvel motor e a resposta era que ter\u00edamos de esperar a sua evolu\u00e7\u00e3o; nessa altura recorri a diversos especialistas, mas em termos familiares incentivamo-la atrav\u00e9s da dimens\u00e3o l\u00fadica, continuando a nata\u00e7\u00e3o e a fisioterapia, tentando que ela iniciasse a marcha. Mesmo caindo, o refor\u00e7o positivo foi uma mais-valia para ela continuar a insistir. Ap\u00f3s uma marcha mais consistente, o treino com a fam\u00edlia passou pelo subir e descer escadas diariamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra das dificuldades prendia-se com a apreens\u00e3o de objetos, o que demonstrava problemas na motricidade fina. Os jogos e brincadeiras que desenvolvessem esta dimens\u00e3o foram uma aposta. Quero referir que a maioria destas estrat\u00e9gias foram implementadas quase de uma forma intuitiva, de acordo com as dificuldades com que nos depar\u00e1vamos, pois n\u00e3o existia um diagn\u00f3stico m\u00e9dico concreto.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1, ainda a referir, as dificuldades a n\u00edvel da linguagem. Neste aspeto o contributo da av\u00f3 materna foi fundamental, visto que a sua rela\u00e7\u00e3o de proximidade, a repeti\u00e7\u00e3o de voc\u00e1bulos, o recurso a lengalengas, hist\u00f3rias e can\u00e7\u00f5es faziam com que a minha filha tentasse aprender novas palavras, mas tamb\u00e9m numa dimens\u00e3o l\u00fadica adequada \u00e0 sua faixa et\u00e1ria, quase de modo repetitivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ora como afirma Vygotsky, a primeira fun\u00e7\u00e3o da linguagem na crian\u00e7a \u00e9 social, ligada a cria\u00e7\u00e3o de la\u00e7os sociais, sendo um fen\u00f3meno de m\u00faltiplas fun\u00e7\u00f5es, passando posteriormente para a egoc\u00eantrica e da comunica\u00e7\u00e3o (2007:82). A crian\u00e7a estabelece uma intera\u00e7\u00e3o social com os adultos mediante a palavra portadora de sentido. Muitas vezes, o sentido das palavras para as crian\u00e7as corresponde ao sentido estabelecido para elas da linguagem dos adultos, possibilitando assim a compreens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA crian\u00e7a n\u00e3o escolhe o sentido da palavra. \u00c9-lhe dado atrav\u00e9s da intera\u00e7\u00e3o verbal com os adultos. A crian\u00e7a n\u00e3o constr\u00f3i livremente os seus pr\u00f3prios complexos. Descobre-os sob uma forma acabada no processo de compreens\u00e3o de uma linguagem que n\u00e3o lhe \u00e9 familiar.\u201d (Vygotsky. 2007:178).<\/p>\n\n\n\n<p>Somente aos tr\u00eas anos, a minha filha foi diagnosticada com paralisia cerebral esp\u00e1tica bilateral, com componente at\u00e1xica, sendo encaminhada para a Terapia Ocupacional e a n\u00edvel do ensino pr\u00e9-escolar para a Educa\u00e7\u00e3o Especial. Ap\u00f3s um ano de Terapia Ocupacional, teve alta, pois considerava-se que n\u00e3o era poss\u00edvel mais evolu\u00e7\u00e3o. Recorri por meios pr\u00f3prios para continuar a ter esse apoio e a n\u00edvel familiar continu\u00e1mos a estimul\u00e1-la a n\u00edvel motor, da linguagem atrav\u00e9s de jogos, atividades, nata\u00e7\u00e3o, fisioterapia, leitura, desenhos e pinturas.<\/p>\n\n\n\n<p>Partindo do pressuposto que o nosso c\u00e9rebro \u00e9 um m\u00fasculo e que pode ganhar compet\u00eancias, apesar de um dos hemisf\u00e9rios possuir les\u00f5es, o trabalho e o meu objetivo foi sempre acreditar que a minha filha atrav\u00e9s de um trabalho persistente poderia evoluir. Para isso, era necess\u00e1rio, incentivar a imagina\u00e7\u00e3o e a criatividade. A imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 antecipat\u00f3ria porque vai al\u00e9m do que \u00e9 aprendido. A imagina\u00e7\u00e3o pode ser reprodutiva (ligada \u00e0 mem\u00f3ria) e criativa, ultrapassando-a. A imagina\u00e7\u00e3o, base da criatividade, revela os aspetos da vida humana. \u00c9 ela que possibilita o desenvolvimento cient\u00edfico, art\u00edstico e tecnol\u00f3gico. No quotidiano, a criatividade \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para a exist\u00eancia humana e para transmutar os problemas e situa\u00e7\u00f5es com que o ser humano se vai deparando.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, partindo da Teoria do Desenvolvimento Cognitivo de Piaget, sendo a intelig\u00eancia um processo b\u00e1sico da vida que ajuda um organismo a adaptar-se ao meio ambiente, era premente apesar das suas dificuldades, a minha filha&nbsp;&nbsp; construir novos entendimentos do mundo baseados nas suas pr\u00f3prias experi\u00eancias, mesmo que isso implicasse alguma frustra\u00e7\u00e3o de n\u00e3o conseguir obter os resultados pretendidos pela sua parte.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a entrada na escolaridade obrigat\u00f3ria, outros problemas surgiram como as dificuldades de aprendizagem, a leitura e a escrita.&nbsp;&nbsp;&nbsp; Fui informada que a minha filha nunca iria conseguir escrever, por isso retomou a Terapia Ocupacional no Centro de Medicina F\u00edsica e de Reabilita\u00e7\u00e3o de Alcoit\u00e3o para aprender a escrever com recurso a Tecnol\u00f3gicas de Informa\u00e7\u00e3o e Comunica\u00e7\u00e3o. No meu entender e do pai, consider\u00e1mos que a nossa filha deveria, pelo menos, conseguir assinar o seu nome, assumindo que \u201co desenvolvimento da escrita ajuda o desenvolvimento do c\u00e9rebro\u201d. Assim, recus\u00e1mos o uso do computador em sala de aula, apesar de praticar em casa e continuar na Terapia Ocupacional. A nossa filha come\u00e7ou a escrever, repetindo as letras v\u00e1rias vezes, fazendo c\u00f3pias, usando cadernos que melhorassem a sua caligrafia. A n\u00edvel do racioc\u00ednio l\u00f3gico abstrato, teve sempre muitas dificuldades; no entanto, em casa fomos usando diversas estrat\u00e9gias para colmatar este problema, que veio a melhorar com a mudan\u00e7a de docente, mas quando a exig\u00eancia dos conte\u00fados program\u00e1ticos aumentou as dificuldades voltaram a acentuar-se, recorrendo a apoios extraescolares.<\/p>\n\n\n\n<p>No 2.\u00ba ciclo, com um maior n\u00famero de disciplinas e docentes, numa nova escola, o controle emocional da minha filha agravou-se; sem respostas a n\u00edvel escolar, procurei um cl\u00ednico especialista em desenvolvimento e foi-lhe diagnosticada com d\u00e9fice de aten\u00e7\u00e3o e concentra\u00e7\u00e3o. Foi medicada at\u00e9 ao final do 3.\u00ba ciclo. Sendo que os seus n\u00edveis de aten\u00e7\u00e3o melhoraram, os resultados escolares tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s ter-se verificado que a minha filha possu\u00eda uma boa mem\u00f3ria, outra estrat\u00e9gia encontrada para melhorar o seu rendimento escolar (devido ao esfor\u00e7o que tinha de fazer para executar resumos e esquemas dos conte\u00fados program\u00e1ticos para estudar \u2013 escrita lenta e morosa), foi que estes \u00faltimos fossem elaborados por mim, sendo que ela os lia, principalmente em voz alta. Esta foi tamb\u00e9m uma das formas que encontrou para compreender melhor as mat\u00e9rias, sobre as quais eram colocadas quest\u00f5es oralmente por mim ou outro familiar, de forma a compreendermos se ela tinha consolidado as aprendizagens. Quero frisar que a minha filha tinha um acompanhamento di\u00e1rio em casa no planeamento dos estudos, da supervis\u00e3o dos cadernos di\u00e1rios, trabalhos de casa para que o enfoque fosse conseguir ultrapassar as suas dificuldades, sempre com um refor\u00e7o positivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, queria compreender as suas \u00e1reas fortes, pontos de interesse de forma a poder ajud\u00e1-la no seu desenvolvimento. Assim, baseando-me no contributo de Howard Gardner, A Teoria das Intelig\u00eancias M\u00faltiplas (1985), uma alternativa para o conceito de intelig\u00eancia como uma capacidade inata, geral e \u00fanica, que permite aos indiv\u00edduos uma performance, em qualquer \u00e1rea, na medida em que este faz uma chamada de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o das crian\u00e7as que n\u00e3o brilham nos testes padronizados, e que, consequentemente, tendem a ser consideradas como n\u00e3o tendo nenhum tipo de talento. Nesta perspetiva, a escola \u00e9, ent\u00e3o, um dos locais privilegiados para reavaliar a import\u00e2ncia do talento de cada crian\u00e7a e compreender a forma como esse talento se exprime de modo diferente em cada ser, encontrando novas op\u00e7\u00f5es curriculares, novos m\u00e9todos, uma nova vis\u00e3o de escola, o que na maioria das vezes n\u00e3o acontece.<\/p>\n\n\n\n<p>Devido \u00e0s limita\u00e7\u00f5es que a minha filha possu\u00eda em diversos tipos de intelig\u00eancia, tentei estimular as intelig\u00eancias em que ela era mais forte, ajudando-a a atingir os seus objetivos de ocupa\u00e7\u00e3o adequados ao seu espectro particular de intelig\u00eancia, centrando-me no seu perfil e \u00e1reas de interesse.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com as \u00e1reas que fui identificando, a escolha a n\u00edvel do ensino secund\u00e1rio foi pela via profissional, ap\u00f3s uma an\u00e1lise cuidada do curr\u00edculo de diversos Cursos T\u00e9cnicos Profissionais. Ap\u00f3s a sua conclus\u00e3o, um novo obst\u00e1culo foram os exames nacionais, nomeadamente a indica\u00e7\u00e3o que se os resultados n\u00e3o fossem positivos seria uma frustra\u00e7\u00e3o para ela. Acontece que insisti que ela os realizasse, independentemente dos resultados que poderia obter; pois na minha \u00f3tica qualquer indiv\u00edduo tem de lidar com a frustra\u00e7\u00e3o e saber super\u00e1-la de forma a melhorar o seu desempenho, sendo a realidade e a vida real repleta de frustra\u00e7\u00f5es. Os resultados obtidos n\u00e3o foram positivos e enveredou-se por uma outra via: Curso Superior T\u00e9cnico Profissional, sempre tendo em aten\u00e7\u00e3o o curr\u00edculo do mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>O apoio que dei \u00e0 minha filha continuou a ser a aposta na sua forma\u00e7\u00e3o, no planeamento do estudo, no acompanhamento dos conte\u00fados lecionados e no refor\u00e7o positivo e motivacional para n\u00e3o desistir e atingir os seus objetivos. Este suporte emocional, motivacional e de refor\u00e7o positivo foi e continua a ser muito importante no percurso escolar e acad\u00e9mico da minha filha, pois ela ao longo do seu caminho j\u00e1 ouviu muitos \u201cn\u00e3o\u201d, \u201cn\u00e3o consegues\u201d, \u201cn\u00e3o \u00e9s capaz\u201d, \u201cn\u00e3o tens perfil\u201d. E cabe, a n\u00f3s, fam\u00edlia, motiv\u00e1-los e eles saberem que acreditamos nas suas potencialidades, pois a sua forma de fazer, de aprender e at\u00e9 de ser pode ser diferente, mas conseguem atingir os seus objetivos se souberem que existe algu\u00e9m que acredita neles. Para estas crian\u00e7as e jovens, a dimens\u00e3o emocional \u00e9 muito importante, superando at\u00e9 as capacidades de intelig\u00eancia cognitiva que possam ter ou n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A decis\u00e3o sobre a Licenciatura a realizar passou pelo mesmo crivo que a escolha dos cursos anteriores, sabendo a minha filha as suas \u00e1reas mais fracas. Ao longo da licenciatura foi bem aceite pela Institui\u00e7\u00e3o de Ensino Superior, apoiada pelo corpo docente, os quais a direcionaram para as suas \u00e1reas mais fortes e voca\u00e7\u00e3o. Enquanto m\u00e3e, continuei a dar-lhe o refor\u00e7o positivo, a orient\u00e1-la, dar-lhe sugest\u00f5es; mas acima de tudo a trabalhar a sua autonomia quanto \u00e0 vida quotidiana e ao seu futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, a minha filha est\u00e1 a frequentar o \u00faltimo ano do Mestrado de Educa\u00e7\u00e3o Especial, dom\u00ednio Cognitivo e Motor com o intuito de ajudar crian\u00e7as e jovens com dificuldades de aprendizagem e defici\u00eancia a ultrapassarem as dificuldades que ela passou e a integr\u00e1-los na sociedade, fazendo a ponte com a sua licenciatura \u2013 Educa\u00e7\u00e3o Social.<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m do referido, os estilos de aprendizagem que optei de acordo com perfil da minha filha foi o auditivo; a leitura e a escrita (apesar dela ter um discurso dis\u00e1rtrico, lentificado) e cinest\u00e9sico, mediante a repeti\u00e7\u00e3o de exerc\u00edcios, atividades de car\u00e1ter l\u00fadico, demonstra\u00e7\u00f5es para ela repetir com instru\u00e7\u00f5es objetivas, nomeadamente esta \u00faltima no que diz respeito \u00e0s suas atividades quotidianas e b\u00e1sicas, como higiene pessoal, arruma\u00e7\u00e3o do seu espa\u00e7o, colaborar nas tarefas de casa, responsabiliza\u00e7\u00e3o pelos animais dom\u00e9sticos, entre outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma forma que a minha filha encontrou para lidar com o seu lado emocional foi atrav\u00e9s da escrita, a qual foi estimulada ao longo dos anos, de forma a trabalhar as suas emo\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m a sua criatividade, visto que sem a dimens\u00e3o emocional \u00e9 imposs\u00edvel existir um comportamento saud\u00e1vel que \u00e9 a base da vida de qualquer indiv\u00edduo para que possa construir a sua vida de uma forma s\u00f3lida e construtiva, como participar ativamente na comunidade em que est\u00e1 integrado. A escrita proporcionou-lhe dar a conhecer a sua experi\u00eancia pessoal enquanto pessoa com paralisia cerebral e partilh\u00e1-la com outros jovens, levando a mensagem da import\u00e2ncia do autoconhecimento, da resili\u00eancia e de acreditarem nas suas potencialidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Por \u00faltimo, quero salientar que desde que a minha filha tomou consci\u00eancia de si mesma e do seu corpo sempre lhe transmiti que tinha paralisia cerebral e nunca lhe ocultei esse facto, pois na minha \u00f3tica ao conhecermos as nossas limita\u00e7\u00f5es \u00e9 o ponto de partida para a autoaceita\u00e7\u00e3o, para a resili\u00eancia e para conseguirmos enfrentar de uma forma consciente os obst\u00e1culos com que nos depar\u00e1mos, sejam eles f\u00edsicos, cognitivos, culturais e sociais, nomeadamente no que diz respeito ao estigma, ao preconceito e \u00e0 exclus\u00e3o de que s\u00e3o alvo.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Bibliografia:<\/h3>\n\n\n\n<p>GARDNER, Howard, KORNHABER, Mindy &amp; WAKE, Warren. (2003). Intelig\u00eancias m\u00faltiplas perspetivas. Porto Alegre: Artmed Editora.<\/p>\n\n\n\n<p>PIAGET, Jean. (1977). O Desenvolvimento do Pensamento. Lisboa: Publica\u00e7\u00f5es Dom Quixote.<\/p>\n\n\n\n<p>VYGOTSKY, Lev. (2007). Pensamento e Linguagem. Lisboa: Rel\u00f3gio D\u2019\u00c1gua<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:40px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Aprender a viver com \u2013 descobrir novas estrat\u00e9gias<\/h2>\n\n\n\n<p>Ao longo do meu desenvolvimento foram aplicadas diversas estrat\u00e9gias, metodologias de acordo com as minhas fases de desenvolvimento e \u00e0 medida que as dificuldades e problem\u00e1ticas iam surgindo estas foram-me adaptando para superar os obst\u00e1culos que enfrentava.<\/p>\n\n\n\n<p>Numa fase inicial, nos primeiros tr\u00eas anos de vida at\u00e9 ser diagnosticada a paralisia cerebral, pois at\u00e9 ent\u00e3o o diagn\u00f3stico era um atraso motor, a minha fam\u00edlia deparou-se com as dificuldades que eu possu\u00eda em manter o tronco direito como a cabe\u00e7a, apostando assim por conta pr\u00f3pria na \u201cNata\u00e7\u00e3o para Beb\u00e9s\u201d, com significativas melhorias ap\u00f3s os primeiros meses. Aperceberam-se das minhas dificuldades em agarrar objetos, brinquedos, refor\u00e7ando a parte l\u00fadica.<\/p>\n\n\n\n<p>Comecei a tentar andar aos dois anos e meio, sempre com o refor\u00e7o positivo da minha fam\u00edlia, mesmo caindo diversas vezes, levando-me para locais sem obst\u00e1culos para que conseguisse proceder a uma marcha, sem que me pudesse magoar. Com esse incentivo e refor\u00e7o positivo, fui melhorando a minha marcha com ajuda e posteriormente, insistindo diariamente na subida e descida de escadas, que ainda hoje tenho alguma dificuldade.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, a n\u00edvel da fala ao detetarem as minhas dificuldades, a aposta foi refor\u00e7ar a comunica\u00e7\u00e3o, onde a minha av\u00f3 materna teve um papel fundamental, visto que apostava num di\u00e1logo constante comigo, contando lengalengas, incentivava-me a cantar e a repetir palavras.<\/p>\n\n\n\n<p>A paralisia cerebral foi-me diagnosticada aos tr\u00eas anos de idade, pelo Centro de Medicina e Reabilita\u00e7\u00e3o de Alcoit\u00e3o onde fiz durante um ano Terapia Ocupacional. Continuei fora do contexto m\u00e9dico a praticar nata\u00e7\u00e3o e, posteriormente no col\u00e9gio, Ballet e gin\u00e1stica.<\/p>\n\n\n\n<p>Na altura, as maiores dificuldades que sentia eram motoras e na fala, comparando-me com os meus colegas de col\u00e9gio no ensino pr\u00e9-escolar. H\u00e1 a referir que a n\u00edvel familiar, incentivavam-me a desenhar, a pintar, a fazer plasticinas e enfiamentos para melhorar a minha motricidade fina. No entanto, foi \u00e0 entrada no 1.\u00ba ciclo que surgiram os maiores desafios, nomeadamente a n\u00edvel da aprendizagem, da leitura e da escrita. Nesta altura, o Centro de Medicina e Reabilita\u00e7\u00e3o de Alcoit\u00e3o, encaminhou-se para a Terapia Ocupacional com apoio de tecnologia, visto que julgavam que eu nunca ia conseguir escrever.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, os meus pais partindo do pressuposto de que \u201ca m\u00e3o ajuda o desenvolvimento do c\u00e9rebro\u201d, insistiam para que eu conseguisse \u201cpelo menos\u201d assinar o meu nome. Com treino para al\u00e9m de assinar o meu nome, comecei a escrever, redigindo c\u00f3pias n\u00e3o apenas no tempo escolar, mas fora dele, inclusive nas interrup\u00e7\u00f5es letivas, tentando melhorar a minha caligrafia. E assim, sempre ao longo do meu percurso escolar e acad\u00e9mico redigi os meus apontamentos, trabalhos e testes, embora num ritmo mais lento.<\/p>\n\n\n\n<p>Devido \u00e0s minhas dificuldades motoras, os meus desenhos e trabalhos de car\u00e1ter manual sempre foram mais \u201cinfantilizados\u201d para a minha faixa et\u00e1ria; no entanto, a minha fam\u00edlia sempre apostou que eu continuasse a desenvolver esta parte, mesmo para o desenvolvimento da dimens\u00e3o da imagina\u00e7\u00e3o, t\u00e3o importante nas crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra dificuldade que tive e ainda possuo, prende-se com o racioc\u00ednio l\u00f3gico matem\u00e1tico, em que me \u00e9 dif\u00edcil ter um determinado grau de abstra\u00e7\u00e3o, apesar da dimens\u00e3o l\u00fadica que a minha fam\u00edlia sempre me apresentou para o desenvolver.<\/p>\n\n\n\n<p>Na escola, devido \u00e0s minhas dificuldades, muitas das vezes, era colocada de parte e n\u00e3o havia um trabalho individualizado de acordo com as minhas necessidades.<\/p>\n\n\n\n<p>A paralisia cerebral afetou, igualmente, o meu controle emocional, passando repentinamente para estados de euforia, o que comprometia o meu comportamento em sala de aula. Nesse sentido, fui encaminhada para consultas de Psicologia, sem resultados aparentes.<\/p>\n\n\n\n<p>A entrada no 2.\u00ba ciclo, veio aflorar outros problemas, uma escola nova, v\u00e1rias disciplinas e docentes. O meu comportamento piorou, sendo que a minha m\u00e3e procurou ajuda e foi-me diagnosticada d\u00e9fice de aten\u00e7\u00e3o e concentra\u00e7\u00e3o num n\u00edvel bastante elevado, tendo sido medicada at\u00e9 ao final do 3.\u00ba ciclo.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 ao 3.\u00ba ciclo, a aposta da minha fam\u00edlia foi sempre melhorar a minha parte motora com nata\u00e7\u00e3o, fisioterapia, jogos que desenvolvessem a motricidade fina, desenhar, pintar, etc. A n\u00edvel da aprendizagem, tive um acompanhamento di\u00e1rio e constante por parte da minha m\u00e3e na elabora\u00e7\u00e3o dos trabalhos de casa, supervis\u00e3o de cadernos di\u00e1rios, planeamento do estudo e refor\u00e7o dos conte\u00fados program\u00e1ticos que tinha mais dificuldade, apostando nas \u00e1reas que me manifestavam mais interesse, nomeadamente a Hist\u00f3ria e a Geografia.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, mediante testes psicol\u00f3gicos, detetou-se que eu tinha uma boa mem\u00f3ria, sendo que a elabora\u00e7\u00e3o de resumos manualmente acabava por me cansar e posteriormente, j\u00e1 n\u00e3o ter disponibilidade intelectual para reter mais informa\u00e7\u00e3o. Assim, a minha m\u00e3e elaborava os resumos e eu estudava, sendo muitas das vezes lidos em voz alta para uma maior interioriza\u00e7\u00e3o e feitas quest\u00f5es para eu responder, oralmente, para verificar que conte\u00fados tinham sido compreendidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s o t\u00e9rminus do 3.\u00ba ciclo, conhecendo as minhas \u00e1reas mais fracas (Motora e o racioc\u00ednio l\u00f3gico matem\u00e1tico), a minha m\u00e3e fez uma pesquisa para verificar que cursos poderiam ir de encontro \u00e0s minhas potencialidades e interesses. Nesse sentido, optei pelo Curso T\u00e9cnico Profissional de Turismo, cujas maiores dificuldades se prenderam com as l\u00ednguas estrangeiras \u2013 ingl\u00eas. Com o mesmo tipo de apoio familiar a n\u00edvel escolar, terminei o Ensino Secund\u00e1rio, sendo que o meu Projeto de Aptid\u00e3o Profissional se debru\u00e7ou sobre o \u201cTurismo Inclusivo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Na altura, apercebi-me que as minhas dificuldades a n\u00edvel da escrita eram de car\u00e1ter disl\u00e9xico, que n\u00e3o foram sinalizadas no 2.\u00ba ciclo e que acabaram por comprometer os exames nacionais; visto que muitos jovens que possuem defici\u00eancia que compromete a parte cognitiva, n\u00e3o s\u00e3o sinalizados devidamente com dislexia, sendo os seus problemas a n\u00edvel de escrita remetidos somente para a patologia que possuem.<\/p>\n\n\n\n<p>Sendo que os exames nacionais s\u00e3o padronizados n\u00e3o tendo em conta as aptid\u00f5es e as \u00e1reas fortes que n\u00f3s enquanto estudantes com necessidades educativas possu\u00edmos; no meu caso, como os resultados n\u00e3o foram positivos, acabei por optar por um Curso T\u00e9cnico Superior Profissional dentro das minhas \u00e1reas de interesse e que ultrapassasse as minhas maiores dificuldades. No entanto, deparei-me com a quest\u00e3o de que as institui\u00e7\u00f5es de Ensino Superior ainda n\u00e3o est\u00e3o totalmente preparadas para receber alunos como n\u00f3s, quer a n\u00edvel da adapta\u00e7\u00e3o curricular, quer a n\u00edvel de avalia\u00e7\u00e3o e sobretudo na aposta das nossas \u00e1reas mais fortes que ultrapassam a intelig\u00eancia a n\u00edvel cognitivo. A orienta\u00e7\u00e3o familiar, o planeamento do estudo, as sugest\u00f5es e as orienta\u00e7\u00f5es da minha m\u00e3e a n\u00edvel do estudo foram fundamentais.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s o \u00faltimo est\u00e1gio, descobri que o meu sonho de ser Educadora de Inf\u00e2ncia era imposs\u00edvel de se realizar, devido \u00e0s minhas dificuldades motoras e de racioc\u00ednio l\u00f3gico-matem\u00e1tico e optei pela \u00e1rea social.<\/p>\n\n\n\n<p>Licenciei-me em Educa\u00e7\u00e3o Social, numa institui\u00e7\u00e3o onde me senti verdadeiramente integrada e apoiada; em que os docentes me encaminharam para a \u00e1rea em que possu\u00eda mais potencialidades. A n\u00edvel familiar, a aposta foi sempre acompanhar-me no planeamento dos estudos, dar-me sugest\u00f5es, apoiar-me nas minhas decis\u00f5es e encaminhar-me nos dom\u00ednios em que possuo mais aptid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Devido \u00e0s dificuldades sentidas ao longo do meu percurso escolar e acad\u00e9mico, tendo identificado diversas fragilidades no que concerne ao apoio e trabalho a n\u00edvel das escolas para com os alunos com Necessidades Educativas Especiais, optei por realizar o Mestrado em Educa\u00e7\u00e3o Especial, dom\u00ednio cognitivo e motor para ajudar, apoiar e apostar no desenvolvimento de crian\u00e7as e jovens com defici\u00eancia e que passam pelas mesmas dificuldades que eu passei.<\/p>\n\n\n\n<p>A aposta no dom\u00ednio da imagina\u00e7\u00e3o e da criatividade e com o incentivo da minha m\u00e3e, escrevi um livro \u201cSentires Especiais\u201d, em que relato a minha experi\u00eancia pessoal, levando essa mensagem mediante palestras a escolas.<\/p>\n\n\n\n<p>Por \u00faltimo, gostaria de frisar que o facto da minha fam\u00edlia nunca me ter ocultado, desde muito cedo, que tinha paralisia cerebral, contribuiu para me conhecer melhor, compreender as minhas dificuldades e limita\u00e7\u00f5es e n\u00e3o desistir de super\u00e1-las, mesmo perante todos os obst\u00e1culos com que me deparei.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste momento, o meu maior desafio \u00e9 a inser\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho, com o qual continuo a contar com o apoio, orienta\u00e7\u00e3o e persist\u00eancia da minha m\u00e3e que tem como lema: \u201cNunca desistir!\u201d<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:60px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-1 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button is-style-fill\"><a class=\"wp-block-button__link wp-element-button\" href=\"https:\/\/lead.uab.pt\/helaheduki\/capitulo-11\/\">Anterior<\/a><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-container-core-buttons-is-layout-2 wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button is-style-outline is-style-outline--1\"><a class=\"wp-block-button__link wp-element-button\" href=\"https:\/\/lead.uab.pt\/helaheduki\/indice\/\">\u00cdndice<\/a><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-right is-layout-flex wp-container-core-buttons-is-layout-3 wp-block-buttons-is-layout-flex\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div style=\"height:60px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Cap\u00edtulo 12 &#8211; A m\u00e3o ajuda a desenvolver o c\u00e9rebro Autoras: Maria Jo\u00e3o Carapinha e In\u00eas Carapinha Palavras-chave: percurso educacional, teoria das intelig\u00eancias m\u00faltiplas, suporte familiar, paralisia cerebral Cita\u00e7\u00e3o: Carapinha, M. J. &amp; Carapinha, I. (2023). A m\u00e3o ajuda a desenvolver o c\u00e9rebro. In M. Francisco, C. Tom\u00e1s &amp; S. Malheiro (Orgs.). 12 hist\u00f3rias educacionais: [&hellip;]","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-2190","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lead.uab.pt\/helaheduki\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2190","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lead.uab.pt\/helaheduki\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/lead.uab.pt\/helaheduki\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lead.uab.pt\/helaheduki\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lead.uab.pt\/helaheduki\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2190"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/lead.uab.pt\/helaheduki\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2190\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2270,"href":"https:\/\/lead.uab.pt\/helaheduki\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2190\/revisions\/2270"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lead.uab.pt\/helaheduki\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2190"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}